O que é que tem de mistura?

                                                                                                

“E o que ‘cê’ fez de mistura?”. O sotaque denunciava a origem nordestina. Eu passava pela rua e, por acaso, ouvi a conversa ao telefone. Um guardinha perguntava, ao celular, carinhosamente para sua esposa – ao menos foi o que imaginei. E aí como a função da imaginação é levar a gente para longe, logo imaginei a moça de avental preparando um pratinho perfumado de arroz, feijão e bife para seu ‘maridinho’. Essas coisas tem o poder de nos transportar para aquele terreno familiar da mesa, da comida da mãe, da avó, da esposa… E, lembrando da minha avó e da minha mãe, que também usavam o termo “mistura”, sorri.

Afinal, quer coisa mais brasileira do que “mistura”? Se você tiver pouca idade ou, vivendo em uma grande cidade, quase não tenha tempo de ir para a cozinha, talvez não saiba exatamente o que é “mistura”, assim, substantivada. Mas provavelmente já ouviu alguém falar assim.

Mistura é tudo aquilo que não é arroz e feijão: carne-frango-peixe, salada, ovo e, em alguns muitos lugares do Brasil, o macarrão. Não sei exatamente de onde veio o uso dessa palavra, dessa forma, mas provavelmente vem de misturar, o que misturar ao arroz e feijão, princípio básico da mesa do brasileiro.

Certa vez, ao analisar a dieta dos caipiras de São Paulo na década de 1940, o sociólogo Antonio Cândido fala sobre o consumo de arroz e feijão em quase todos os dias e refeições da semana, classificando o primeiro como “fraco” e o segundo como “forte”, num equilíbrio yin-yang da culinária. O estudioso cita que, eventualmente, estes caipiras incluem alguma “mistura” forte ou fraca, dependendo do trabalho que farão no dia, entre elas carne de porco, de caça, ovos, ou alface e couve. Para eles, o feijão era considerado o “chefe da mesa”, enquanto o arroz ia bem com todas as “misturas”.

No livro À Mesa com a Família: Um Estudo do Comportamento do Consumidor de Alimentos, de Letícia Casotti, uma das entrevistadas para a obra diz: “Eu ainda sou daquela moda antiga. Comeu abacaxi, não pode tomar leite. Comeu jaca, não pode dormir. Se a mulher está de resguardo, não pode comer carne de porco. Lá no Norte, que tem aquela preferência por comida, tem um monte de coisas que se a gente comer misturado faz mal. Aqui no Rio de Janeiro, a gente come de tudo que vê na frente porque a gente não sabe nem o que está ingerindo, e nada faz mal”. Curioso é que justamente em algumas regiões do Nordeste do país é que se mistura arroz, feijão e macarrão – algo que, pelo menos para os paulistanos “da gema”, soa esquisito.

Mas, no fim das contas, se mistura é, por definição, o ato ou efeito de misturar; pode ser também o cruzamento de raças, a miscigenação. E o que é o Brasil senão um verdadeiro caldeirão de pátrias, culturas, cores e sabores?

***Foto: Marvin Mollinedo

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.::Foie gras do bem::.

Eu provei foie gras uma vez na vida, em um coquetel, e estava tão misturado a outras coisas que sequer me lembro do sabor que tinha… e foi num tempo em que eu mal sabia o que era isso. Depois que descobri o processo de gavage, entrei para a turma dos que não comem foie gras por princípio – embora eu continue comendo carnes de todos os tipos.
Para quem não sabe, o foie gras é produzido a partir do processo chamado gavage. Consiste em inserir um tubo na garganta do ganso e colocar comida, muita comida, mais do que ele provavelmente comeria em toda a sua vida, de uma só vez. Com isso, o fígado incha e, tcharam, “habemus foie gras”. O site Stop Gavage tem mais informações, e revela o quanto o movimento é mundial.
Chegou também em terras brasileiras, mais especificamente em São Paulo, onde um projeto de lei quer proibir a produção e comercialização do produto. Aprovado na primeira votação, ele passará ainda por uma segunda rodada antes de seguir para o prefeito Fernando Haddad.
Nessa onda contra o foie gras, chefs de cozinha protestam, amantes da iguaria também. Mas sua produção não é, de fato, cruel? Parece um impasse sem uma saída razoável – assim como o embate entre vegetarianos e carnívoros, certo? É aí me deparo com uma palestra no site do TED, do chef Dan Barber, de Nova York. Recomendo a todos, porque é divertida e surpreendente. E traz uma ótima notícia: é possível produzir foie gras sem entupir o pobre ganso de comida!
 

Preparando o estômago (e o bolso)

Claude Toisgros, Helena Rizzo, Carla Pernambuco, Rogério Fasano são alguns dos nomes de peso do Semana Mesa São Paulo, promovido pelo Centro Universitário Senac, em outubro. O evento começa só em 25/10, mas quem fizer inscrição até 31 de agosto paga mais barato – ou menos caro. O pacote de três dias de evento para o público em geral sai a R$ 990, até esta data. Depois, o preço sobe. E bastante. Para quem quiser saber mais, a programação completa está no site.

Gente versus Comida

Não é de hoje que se discute a questão da fome no mundo. Para pessoas que, como eu, estão em São Paulo – “Capital Mundial da Gastronomia” – esta parece uma realidade distante. Mas não é preciso cruzar o Atlântico até a África para se deparar com quem não tem o que comer, ou para quem come feijão com farinha todo dia porque é o que tem “pra” hoje. Contra a cultura do consumo desenfreado, da produção de alimentos industrializados, criados à base de agrotóxicos, hormônios e abate de animais de maneira cruel, há quem defenda o retorno as raízes, a horta caseira, a galinha de granja…

Eu mesma, crescida em São Paulo, tive oportunidade de sempre passar as férias na casa dos avós, num sítio, no interior paulista. Comi fruta do pé, galinha de granja, porco criado com “lavage”. Ajudei minha avó a regar a horta, de onde saiam todo o tipo de verduras… E acho que seria uma delícia se todos nós pudéssemos comer desta forma ainda hoje. Sim, porque o sabor é, de fato, inigualável.

No entanto, o tamanho da população mundial já torna este processo inviável. Esta semana, ao ler um artigo do ex-Secretário do Meio Ambiente de São Paulo, cheguei à conclusão que estamos diante de uma equação que parece insolúvel: 18,1 bilhõe versus 13,4 bilhões. Esta é a diferença entre o total de hectares necessários para alimentar a população mundial, e o total disponível. A solução imediata seria mudar nossos hábitos de consumo. Mas, de que modo isso traria, de fato, algum impacto a quem, de fato, passa fome?

Já há uma corrente que sugere que nós, seres humanos, precisaremos aprender a tirar nossos nutrientes de outras fontes, como insetos, por exemplo (leia mais).  Alex Atala dividiu, em entrevista ao Roda Viva, na TV Cultura, suas experiências provando insetos ao redor do mundo. Mas é preciso confessar que, incialmente, é difícil trocar um belo prato de arroz com feijão por um gafanhoto salteado na manteiga.

A natureza, de quando em quando, dá demonstrações de força, como que querendo chegar a uma solução, pelo modo mais cruel, e mais direto: eliminando as pessoas. Mas, se não é isso que queremos, obviamente; e também não sabemos para onde vamos, será que há luz no fim do túnel?

*Foto: Stock.xchng

Chá & Chocolate

Para quem gosta de chá, a novidade da Páscoa é a Tee Geschwendner – A Loja do Chá, que lançou um blend para ser harmonizado com chocolate! Ele combina erva rooi (um arbusto sul-africano), chá branco, pedaços de caramelo, morango e maçã, além de flores de hibisco, rosa mosqueta e cascas de laranja e limão. Por R$ 37, você leva 50g, e ainda pode aproveitar a visita para levar ovos de chocolate feitos com chá verde e earl grey, entre outras variedades de chás.

***Foto: Divulgação

Gulasch por Grilos

Vai um aí? Gafanhotos sob manta de chocolate

Este é o título da matéria publicada na alemã der Spiegel, sobre comermos insetos. A matéria trata de um jantar promovido por biólogos e outros profissionais da área de meio ambiente, que defendem o uso destes bichinhos na culinária. O menu inclui iguarias como formigas, e minhocas em formato de pretzels.

Os entrevistados alegam que, com o crescimento vertiginoso da população mundial, ficará cada vez mais difícil alimentar a todos – o que já não ocorre. Além disso, a criação de animais para o consumo da carne não é considerado sustentável – no Brasil, por exemplo, a maior parte da produção de soja se destina à alimentação de bovinos, o que implica em áreas cultiváveis imensas com um único produto que, em grande parte, não se destina diretamente ao consumo humano.

Portanto, os defensores da ideia, na matéria, alertam para uma mudança que será mais necessária do que desejada.

Se puxarmos a história da alimentação humana, perceberemos que os hábitos alimentares são diferentes não apenas de cultura para cultura, como também de uma época para outra. Antes do fogo, tudo era cru. Houve um tempo em que gordura excessiva era necessária para dar a energia que o homem precisava para longas jornadas, ou para trabalho pesado. Hoje, ou nos adaptamos, ou ficamos obesos, uma vez que a rotina mudou, mas alguns itens do cardápio não.

Para os alarmistas, em um futuro breve, o maior problema não será excesso de comida, mas a falta dela, e portanto seremos obrigados a mudar o menu. E, você? Trocaria seu gulasch por um prato de grilos grelhados?

*Foto: Reprodução Geraint Lewis/DER SPIEGEL